Testemunhos de Fé

Você certamente já leu que o Círio começa na Catedral da Sé e vai até a Basílica Santuário de Nossa Senhora de Nazaré. É muito comum que isso seja dito ou escrito, e normalmente quem nunca veio a Belém para ver, assistir ou participar do Círio acaba acreditando.

Nesse site, contudo, somos obrigados a lhe dizer que isso não é exatamente uma verdade. Pelo amor que nos move, pela devoção que nos guia, pelo norte Mariano da bússola das nossas vidas, somos obrigados a esclarecer que o Círio não começa na Sé e nem termina na Basílica de Nazaré. Isso é apenas e tão somente um trajeto, um percurso, uma realidade cartográfica.

O Círio começa, de fato, nos olhos que na manhã benta do segundo domingo de outubro veem o dia nascer mais cedo, a alvorada raiar mais clara, dedicando os melhores ângulos da luz solar para aquela pequena berlinda dourada onde a Mãe de Deus vai passear por Belém. Os mesmos olhos que veem aquele mar de gente crédula, cheia de fé, repleta de esperança e gratidão, a se amontoar pelas ruas desta cidade iluminada, que traz no nome o combustível que a move: Santa Maria de Belém do Grão Pará.

Dali em diante o Círio segue nos ouvidos, privilegiados por tantos sons sagrados. Orações, hinos, súplicas, agradecimentos, homenagens e bênçãos. Uma autêntica colcha sonora dos mais preciosos retalhos, colorida pelo som dos fogos de artifício, a explodir no ar a emoção e a alegria de cada paraense, ecoando com força uma expressão que só existe aqui: Feliz Círio! É um paraensismo inexplicável, quase um aforismo a traduzir o significado de felicidade, orgulho e amor por Maria.

Se chegou até aqui, podemos supor que brotou em você uma certa curiosidade acerca desse fenômeno. Vá adiante, creia, Em muitos casos essa história de amor começa assim mesmo. É a maior festa católica do planeta, a maior manifestação Mariana do mundo, muito maior que Fátima, Aparecida, Guadalupe ou qualquer outra. A gente sabe que todas são devotadas a Maria, mas essa, convenhamos, é especial, é nossa, acontece aqui, na ilharga da gente.

Depois dos olhos e dos ouvidos, vem o tato. O Círio é coisa que a gente toca, segura com força, aperta na mão, com medo de que ele escorra por entre os dedos, feito água. É o segurar na corda, o abraçar a família, o apoiar alguém prestes a desmaiar, o apertar da mão dos amigos. É o tocar no Manto, na Imagem Peregrina, num Guarda da Santa. É colocar um objeto de cera num dos carros dos milagres. É, enfim, um conjunto de incríveis sensações táteis a comprovar que a fé é de verdade, é algo que a gente vê, escuta e pode tocar.

E os cheiros do Círio, esses perfumes sacrossantos que fascinam, inebriam e entontecem, como diria o poeta, fazendo penetrar pelas narinas o odor da virtude, do amor, do perdão. Cheiro de gente suada a seguir a Santa, cheiro de gente banhada, perfumada pra ver a Santa passar. Cheiro de cheiro do Pará, de piprioca, cheiro do sizal da corda umedecido pelo suor dos romeiros, cheiro de comida da terra que vem das janelas por onde o vapor das movimentadas cozinhas chega às ruas de Belém.

E junto vem o paladar, encharcado pela ansiedade do almoço do Círio, um festival de cores, sabores e prazeres gustativos que herdamos da floresta e dos índios para dedicar à Santa. Tucupi, maniva, pimenta. Tudo forte, tudo cheio de identidade, tal qual o paraense, o caboclo dessa terra gloriosa, corajosa e sofrida, dona da única estrela que brilha no alto da bandeira brasileira.

Esse é o Círio, uma imensidão de sentimentos, um renascer da alma que não necessariamente tem lugar certo para começar ou para chegar ao fim. Venha a Belém, veja, ouça, toque, cheire a prove o Círio de Nazaré. Você jamais vai entender se não se permitir. O único risco é ter que voltar sempre, afinal ele nunca termina; fica guardado pra sempre no coração.

Albano Martins